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Era uma vez uma menina. Pequenina. Com umas pestanas grandes. O que a menina mais gostava no Mundo era do Mar. Ela e o Mar eram parecidos. Ela tinha dentro dela algo tão imenso e profundo como o Mar que adorava. Deitava-se à beira-mar, com a areia a queimar-lhe agradavelmente a barriga das pernas. Enterrava os dedos na areia, agarrava-a com força e depois abria um fendazinha, na sua mão fechada e deixava que a areia lhe escorresse entre os dedos, como pó de ouro. Deitava-se a olhar pro Céu, tão azul como o Mar, a atribuír formas de coisas às nuvens e a dar-lhes nomes. Deitava-se na areia a contar segredos às ondas. E gostava dos finais de tarde, em Setembro, quando o Vento quente a envolvia. Não era aquele Vento abrasador de Julho, irrespirável. Era o Vento morno e doce. E a menina imaginava por quantas pessoas já tinha esse vento passado nesse dia. Quantas pessoas já tinham sentido aquele abraço... Imaginava que o Vento levava os sonhos das pessoas. Transportava-os pra mais longe, mais além. E a quantidade de sonhos que ele transportava... tantos! O Vento frio e cortante de Inverno era diferente. Envolvia as pessoas mas não lhes levava os Sonhos. Transportava os medos e receios... E assim, a menina cresceu. Continuou pequenina. As suas pestanas continuaram grandes. E tornou-se vendedora de Sonhos.
